quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Diário de trabalho

25. 7. 38

Benjamin está aqui. Está escrevendo um ensaio sobre Baudelaire. Há boas ideias no texto. Ele mostra como a probabilidade de uma época sem história distorceu a literatura depois de 48. A vitória em Versalhes da burguesia sobre a comuna sofreu descontos antecipados. Chegou-se a um acordo com o mal. Que tomou a forma de uma flor. É útil ler isso. Estranhamente é o spleen que permite a Benjamin escrever isto. Ele usa como seu ponto de partida algo a que dá o nome de aura, que está ligada aos sonhos (devaneios). Diz ele: se você sente um olhar dirigido a você, mesmo nas suas costas, você o retribui (!). A expectativa de que aquilo para que você olha olhará de volta para você cria a aura. Supõe-se que isso está em decadência nos últimos tempos, junto com o elemento de culto na vida. Benjamin descobriu isso enquanto analisava filmes, onde a aura é decomposta pela reproduzibilidade da obra de arte. Uma carga de misticismo, embora sua atitude seja contra o misticismo. Este é o modo como o entendimento materialista da história é adaptado. É abominável. 

5. 10. 38

Do valor literário: que escritor é Gide, cujo belo livro sobre os prazeres terrenos o exército da frente popular francesa leva na mochila quando marcha! Ou então guarda o livro na mesinha de cabeceira e falta à marcha. E Hasek: seu grande livro está encolhendo hora após hora enquanto as zonas-V são ocupadas pelo exército de Hitler. Era o relato da vitória de um povo oprimido, o relato de Odisseu. Mas a vitória foi efêmera demais. Ele agora figura numa lista de livros suspeitos e trata de acontecimentos que as pessoas não conhecem mais. 

(Bertolt Brecht, Diário de trabalho: Volume I, 1938-1941. Trad. Reinaldo Guarany e José Laurenio de Melo. Rio de Janeiro: Rocco, 2002, p. 8-9; 21).

*

A ligação entre Gide e Benjamin, por sua vez, se dá por incontáveis fios; um dos fios possíveis é a entrevista que Benjamin fez com Gide em Berlim, em janeiro de 1928 (dez anos antes da temporada com Brecht na Dinamarca).

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Problema no paraíso, 2

1) Lá pelas tantas, Zizek inicia um comentário a respeito de dois livros de Fredric Jameson - Representing Capital, de 2011, e Valences of the Dialetic, de 2009 (nas referências de Problema no paraíso o livro de Jameson está erradamente apontado como Violence of the Dialetic) - e seu diagnóstico acerca do "ponto extremo de unidade dos opostos na esfera econômica", ou seja, quanto mais produtividade, mais desemprego. Segundo Jameson, escreve Zizek, os desempregados devem fazer parte de uma categoria mais ampla, aquela dos "expulsos da história", "casos sem esperança ou terminais", aqueles que habitam as terras devastadas do planeta, no projeto continuado de manutenção das ruínas (via "guerra ao terror", desastres ecológicos e assemelhados). É necessária, portanto, a ampliação dessa categoria de excluídos, escreve Zizek, "como os espaços em branco dos mapas antigos" (os espaços em brancos dos mapas antigos sendo justamente o que despertou o interesse de Conrad pelas viagens e pela vida de capitão, como comenta Sebald em Os anéis de Saturno).
2) Zizek fala da necessidade de incluir um novo termo à proposta de Jameson - os "ilegalmente empregados", do mercado negro e as diferentes formas de escravidão. Isso permite a articulação dialética da posição de Jameson - os "excluídos" estão de fato "incluídos" a partir da perversa Aufhebung da exclusão (a simultânea suspensão/manutenção hegeliana). "Tomemos o exemplo do Congo de hoje", escreve Zizek, "por trás da fachada das 'paixões étnicas primitivas' mais uma vez explodindo no 'coração das trevas' africano, é fácil discernir os contornos do capitalismo global". 
3) No Congo, o Estado já não existe como unidade - chefes militares controlam parcelas do território, mantendo vínculos com corporações estrangeiras, que pagam pela exclusividade para a exploração dos recursos. "A ironia", escreve Zizek, "é que esses recursos minerais são usados em produtos de alta tecnologia, como laptops e celulares. Assim, em suma, esqueça o hábito de culpar pelos conflitos os 'costumes selvagens' das populações locais: basta tirar da equação as companhias estrangeiras de alta tecnologia e todo o edifício das 'guerras étnicas fomentadas por antigas paixões' irá desmoronar" (p. 30-31).  

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Problema no paraíso, 1

O jogo de paradoxos de Zizek tem como um de seus precursores o estudo conjunto de Adorno e Horkheimer, a Dialética do Esclarecimento. Inclusive a ideia da Igreja como a principal potência anticristã em atividade - Zizek cita a autocoroação de Napoleão e aquilo que o Papa Pio VII teria dito a ele: o senhor quer destruir a Igreja mas não vai conseguir: nós estamos tentando há séculos - foi levantada por Adorno e Horkheimer no "Excurso II", sobre Kant, Nietzsche e Sade. A obra deste último, no que tange à religião, afirmam os autores, "tira as consequências que a burguesia queria evitar", ou seja, "amaldiçoa o catolicismo, no qual vê a mitologia mais recente e, com ele, a civilização em geral". Sade, contudo, redireciona energias latentes, que já estão ali: Juliette, de Histoire de Juliette, ou les Prospérités du vice (publicado em 1801), "se dedica esclarecidamente, diligentemente, à faina do sacrilégio, que os católicos também tem no sangue desde tempos arcaicos".
Juliette professa "o gosto intelectual pela regressão", ou ainda, ""o prazer de derrotar a civilização com suas próprias armas" (uma fórmula que evoca aquela usada por Adorno e Horkheimer no prefácio de 1969 ao livro: "Crítica da filosofia que é, não quer abrir mão da filosofia", que por sua vez evoca outra do prefácio de 1944: "A aporia com que defrontamos em nosso trabalho revela-se assim como o primeiro objeto a investigar: a autodestruição do esclarecimento"). Juliette, à maneira de Zizek, se diverte caçando incoerências nos discursos estabelecidos - especialmente o religioso: "nada é mais cômico do que essa incoerência do dicionário católico: Deus, que quer dizer eterno; morto, quer dizer não eterno - Cristo, o Deus morto!" (Adorno e Horkheimer, Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos. Trad. Guido Antonio de Almeida. Zahar, 2006, p. 81-82). 
Eles escrevem também de Juliette: "Ela ama o sistema e a coerência", o que faz pensar em palavras recentes de Gayatri Chakravorty Spivak em entrevista, ao falar da desconstrução como uma crítica da "intimidade" e não da "distância": It’s critical intimacy, not critical distance. So you actually speak from inside. That’s deconstruction. My teacher Paul de Man once said to another very great critic, Fredric Jameson, “Fred, you can only deconstruct what you love.” Because you are doing it from the inside, with real intimacy. You’re kind of turning it around. It’s that kind of critique.

domingo, 28 de agosto de 2016

Problema no paraíso

Uma estratégia retórica, quase uma figura do pensamento, se repete bastante nesse livro de 2014 de Slavoj Zizek, Problema no paraíso (traduzido por Carlos Alberto Medeiros e publicado pela Zahar em 2015), a estratégia do falso paradoxo. Uma série de instituições e discursos se sustentam a partir de um jogo duplo entre aparência e essência, entre denúncia pública e cultivo privado (um desdobramento daquilo que Foucault propôs acerca da sexualidade: o controle reside não na aparente proibição, mas na íntima necessidade de confissão constante). A pedofilia na igreja católica, por exemplo, escreve Zizek:
é um fenômeno que diz respeito à Igreja católica em si, que se inscreve no seu próprio funcionamento como instituição sociossimbólica. (...) Não é algo que aconteça porque a instituição tenha de se acomodar às realidades patológicas da vida libidinal a fim de sobreviver, mas uma coisa de que a própria instituição necessita para se reproduzir. Pode-se muito bem imaginar um padre não pedófilo que, depois de anos de serviço, venha a se envolver com a pedofilia porque a própria lógica da instituição o seduz a isso. (p. 89).
Pouco antes, resgatando o Sloterdijk de Ira e tempo, Zizek comenta esse supremo gesto do capitalismo de criar em si mesmo "seu oposto mais radical", o "gesto soberano de autonegação da acumulação infindável de riquezas", ou seja, a caridade, o gasto da riqueza "com coisas sem preço":
O que a ideia de Sloterdijk significa é nada menos que a elevação de figuras como George Soros ou Bill Gates a personificações da inerente autonegação do próprio processo capitalista: sua obra de caridade, suas imensas doações para organizações de previdência social, não é apenas uma idiossincrasia pessoal, sincera ou hipócrita, mas a conclusão lógica da circulação capitalista, necessária de um ponto de vista estritamente econômico, uma vez que permite ao sistema capitalista postergar sua crise. (p. 61).
Voltando à Igreja e suas inúmeras contradições, Zizek escreve que "tão logo uma religião se estabeleça como instituição ideológica legitimando as relações de poder existentes" ela precisa lutar "contra seu próprio excesso endógeno" (cismas, divisões e acusações do tipo: por que estamos fazendo justamente aquilo que combatemos no passado?). Como conciliar a sociedade de classes e a desigualdade com o ideal da "pobreza igualitária" dos Evangelhos?:
A solução de Tomás de Aquino é que, embora, em princípio, a propriedade comum seja melhor, isso só vale para humanos perfeitos; para a maioria de nós, que vivemos no pecado, a propriedade privada e a diferença de riquezas são naturais, e é até pecaminoso exigir a abolição da propriedade privada ou promover o igualitarismo em nossas sociedades decaídas, ou seja, exigir para pessoas imperfeitas o que só vale para as perfeitas. Essa é a contradição imanente que está no cerne da identidade eclesiástica, tornando a Igreja estabelecida a principal força anticristã de nossos dias. (p. 174).
Nesse último caso, o paradoxo inaugural - a mensagem igualitária dos Evangelhos versus a prática hierarquizante da Igreja - e sua manutenção ao longo dos séculos termina por gerar um paradoxo mais amplo e estrutural, a Igreja como principal força anticristã de nossos dias.  
Tomás de Aquino em detalhe de afresco de Filippino Lippi

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

A lente de aumento

Sebald começa Os anéis de Saturno celebrando o olhar anticartesiano de Rembrandt, que escolhe representar a mão do bandido assassinado de forma desproporcional, mostrando, segundo a leitura de Sebald, o absurdo da empresa racionalista exemplificada pela Lição de anatomia do dr. Nicolaas Tulp. O detalhe revelador, sempre à mostra como a carta roubada de Poe, salta aos olhos e mostra a mão invertida, absurda. A mão do morto faz par com a mão do dissecador, do cientista, que mimetiza o movimento que o morto já não pode mais fazer.
Em Os emigrantes, no último capítulo, quando visita o pintor Frank Auerbach pela segunda vez, depois de vinte e cinco anos de distância, o narrador de Sebald reencontra pendurado no mesmo lugar outro quadro de Rembrandt, uma reprodução de Homem com uma lente de aumento (retrato feito por volta de 1660 de Pieter Haringh, leiloeiro e negociador de obras de arte, artefatos os mais diversos, relógios, joias, diamantes, que se tornam mais ou menos íntegros, mais ou menos valiosos através do uso desse instrumento, dessa prótese que é a lente de aumento).
O ofício do modelo de Rembrandt faz lembrar o joalheiro de Leskov, aquele que sabia reconhecer a pedra especial, a alexandrita. Mas não só por isso: existe algo de transcendental, quase metafísico, tanto na relação do joalheiro de Leskov com as pedras (e as profundezas que a produziram, sobretudo) quanto na relação do pintor Auerbach com a reprodução de Rembrandt, pendurada como um amuleto, no mesmo lugar, durante vinte e cinco anos (como se estivesse sempre a relembrar, do fundo de suas trevas tão anticartesianas, a importância de atentar para os detalhes, de ver de perto, de perseverar na minúcia). 

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Peregrinação inglesa

A paisagem inglesa
Como sabemos, Os anéis de Saturno, de Sebald, tem como subtítulo "uma peregrinação inglesa" (do latim per agros, isto é, pelos campos). Por isso as caminhadas do narrador pela região de Suffolk, no leste da Inglaterra, e a descrição continuada de prados, bosques, desfiladeiros, praias, fazendas, charcos, e correlatos. Em determinado momento do terceiro capítulo, surge uma cerca elétrica e, atrás dela, um rebanho de porcos. O narrador pula a cerca e chega perto de um dos animais:
Corri a mão sobre seu dorso empoeirado, que estremeceu ao inusitado toque, acariciei-lhe o focinho e o rosto e afaguei-lhe a cova atrás da orelha, até que ele suspirou como alguém afligido por infinito sofrimento. Quando me reergui, tornou a fechar o olho com uma expressão de profundo afeto.
O episódio faz o narrador pensar na história de Jesus expulsando os demônios nos Evangelhos. Uma "história terrível", escreve ele, quando "o Senhor ordenou aos espíritos maus que entrassem no rebanho de porcos que ali se alimentava":
Os demônios imploraram a Jesus: "Manda-nos para os porcos, para que entremos neles". Ele lhes deu permissão, e os espíritos imundos saíram e entraram nos porcos. A manada de cerca de dois mil porcos atirou-se precipício abaixo, em direção ao mar, e nele se afogou (Marcos 5, 12-13)
As ovelhas no fundo do precipício
A junção do projeto geral - peregrinação inglesa - com o detalhe da morte dos porcos me fez lembrar de Far from the Madding Crowd, o livro de Thomas Hardy de 1874, cuja ação inicia em 1870 (ano citado por Sebald quando menciona o projeto de iluminação pública usando cadáveres de arenque). O pastor Gabriel Oak acorda sobressaltado e vai conferir suas ovelhas, que não encontra no cercado. Ele começa a subir a colina que leva ao precipício e vê ao longe seu cão, "sombrio e impávido como Napoleão em Santa Helena", escreve Hardy, e continua:
A horrible conviction darted through Oak. With a sensation of bodily faintness he advanced: at one point the rails were broken through, and there he saw the footprints of his ewes. The dog came up, licked his hand, and made signs implying that he expected some great reward for signal services rendered. Oak looked over the precipice. The ewes lay dead and dying at its foot—a heap of two hundred mangled carcasses, representing in their condition just now at least two hundred more.
Existe até uma simetria na quantidade de animais - dois mil porcos, duzentas ovelhas. O que deu na cabeça do cachorro, que levou as ovelhas até a beira do precipício e as fez pular, uma a uma? Animais que enlouquecem; a insondável profundeza dos olhos de certos animais e filósofos, como Sebald aponta no início de Austerlitz:
A respeito da história de Jesus e os porcos, o narrador de Sebald também vê aí uma "parábola" acerca da necessidade de "nossa doentia razão humana" de "sempre investir contra uma outra espécie, por nós considerada inferior e digna de nada além da destruição". É digno de nota que também Hardy, ao concluir a história do cão e das ovelhas (ele é executado pelo pastor em seguida), mencionando sua capacidade de levar o trabalho até o fim, até as últimas consequências, aproxima o animal dos filósofos:
George's son [ou seja, o cão] had done his work so thoroughly that he was considered too good a workman to live, and was, in fact, taken and tragically shot at twelve o'clock that same day—another instance of the untoward fate which so often attends dogs and other philosophers who follow out a train of reasoning to its logical conclusion, and attempt perfectly consistent conduct in a world made up so largely of compromise.
E não é também uma espécie de antecipação de Adorno - o Adorno da Dialética do Esclarecimento - essa ideia do filósofo who follow out a train of reasoning to its logical conclusion, sendo essa "conclusão lógica" a própria destruição e mortandade, como tantas vezes escreve Sebald?  
O cão filósofo

(as imagens são da mais recente adaptação de Far from the Madding Crowd, de 2015, dirigida por Thomas Vinterberg)

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Festa sob as bombas

H. G. Adler
1) O posfácio de Festa sob as bombas, memórias de Elias Canetti de sua temporada inglesa ao longo da II Guerra Mundial, é assinado por Jeremy Adler, filho de H. G. Adler (Hans Günther Adler, nascido em Praga em 1910, deportado em 1944 para Buchenwald, autor do enorme volume sobre Terezín citado em Austerlitz). Festa sob as bombas é um livro inacabado, às vezes esquemático, às vezes repetitivo. Segundo Adler escreve no posfácio, Canetti "entendia seu espólio como um meio para manter-se vivo: observou mais de uma vez que deixava muitas obras propositalmente inacabadas, para não as ter de publicar; seriam então descobertas e difundidas depois de sua morte, pelo que se salvaria do ocaso".
2) O livro é também bastante seletivo, mais uma reconstrução imaginativa do que uma reprodução factual. Focar no período inglês "leva Canetti a omitir vários amigos que se esperaria encontrar na biografia", e um exemplo mencionado por Adler é o de Michael Hamburger, poeta, ensaísta, amigo e tradutor de Sebald (Hamburger é personagem de Os anéis de Saturno, além de ter traduzido poemas de Sebald - e também Hamburger, assim como faz Adler com Canetti, conta que Sebald não era tão claro a respeito a própria vida como podia parecer). 
3) Adler também ressalta o modelo de Canetti para Festa sob as bombas, modelo referido pelo próprio Canetti em três momentos ao longo das memórias: John Aubrey e seu Brief Lives (as "vidas breves de homens eminentes", do século XVII, que Wilcock traduziu ao italiano em 1977 para a Adelphi de Roberto Calasso). Usando o modelo de Aubrey, entre a bricolagem e o desarranjo cubista, Canetti, escreve Adler, "constrói sua própria biografia como coletânea de biografias daquelas figuras verdadeiras que conheceu, verdadeiras mas ao mesmo tempo típicas para a época" - como se o artista narrasse a própria vida a partir das vidas que testemunha e observa. (Jeremy Adler, "Posfácio", in: Elias Canetti, Festa sob as bombas. trad. Markus Lasch. Estação Liberdade, 2009, p. 193-211).